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Bebedouro, São Paulo, Brazil
Geólogo e professor aposentado, trabalho este espaço como se participasse da confecção de um imenso tapete persa. Cada blogueiro e cada sitiante vai fazendo o seu pedaço. A minha parte vai contando de mim e de como vejo as coisas. Quando me afasto para ver em perspectiva, aprendo mais de mim, com todas as partes juntas. Cada detalhe é parte de um todo que se reconstitui e se metamorfoseia a cada momento do fazer. Ver, rever, refletir, fazer, pensar, mudar, fazer diferente... Não necessariamente melhor, mas diferente, para refazer e rever e refletir e... Ninguém sabe para onde isso leva, mas sei que não estou parado e que não tenho medo de colaborar com umas quadrículas na tecedura desse multifacetado tapete de incontáveis parceiros tapeceiros mundo afora.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Ah, Elis Regina... É tão bom voltar a ouvir sua fala
(22dez2014)

Assisti no Youtube a uma entrevista de Elis Regina. Após tantos anos de sua morte, ela vem lentamente desaparecendo da mídia. As imagens que mostram sua força e suas opiniões marcantes, além da beleza em seus gestos e do brilho de seus sorrisos e risadas, foram lentamente esmaecendo em minha memória. Não esquecidas, mas perdendo o brilho. Hoje, seus olhos e sua voz, no vídeo, refizeram e fizeram ainda crescer minha admiração por ela.

O tempo vivido desde então me deu mais critérios para, hoje, entender melhor sobre o que Elis falava.

Uma personalidade inesquecível. Intensa. Íntegra.

O mais interessante é ver o quão atual é sua fala.

Essa entrevista foi concedida na TV Cultura de São Paulo em 5 de janeiro de 1982. Catorze dias depois Elis morreu. Foi sua última entrevista.

Vale a pena conferir. Quem a viu à época refrescará sua memória, reavivando o prazer de revê-la. Quem não a conheceu, os jovens de hoje, aposto que deverão ficar encantados com essa personalidade tão marcante, entendendo que ela não somente cantava, e muito, mas tinha muita clareza sobre o mundo em que vivia.

Pena que ela partiu. Hoje estaria à beira dos 70 anos, e fico imaginando como ela seria hoje em nosso cenário do terceiro milênio caso ela mantivesse essa lucidez e sensibilidade.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Um salutar pontapé da música em minha vida
(1out2014)

Nos idos de 1974 chegava eu, aos 17 anos, à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro para iniciar meu curso de graduação em Geologia. Feliz, vindo de uma cidade do interior de São Paulo que ficava a uma distância de 800 quilômetros, vivia cada momento daqueles dias com um sorriso que insistia em ficar estampado em minha face. Eu estava imbuído de diversas responsabilidades. A responsabilidade de morar longe dos pais, a de viver com recursos bastante escassos, a de dar conta dos estudos universitários, a de corresponder à altura à chance que recebia de estudar em uma escola superior pública. Tudo isso bailava em minha cabeça com muita clareza. Tudo isso me fazia também feliz por ter tanta confiança depositada em minhas seriedade e capacidade.

Todo esse tempo me veio vividamente agora quando por uma dessas buscas pela internet encontrei vídeos de um coro da ópera Nabuccodonosor, o Va pensiero. Assim que as aulas do primeiro semestre começaram, minha sala foi visitada por um pessoal do Coral da UFRRJ, convidando os calouros para nele ingressarem. Venci minha timidez e caipirice interiorana e lá fui eu, na quinta-feira à noite, para ensaiar no coral. Daí, foram seis anos de participação, sendo quatro como aluno e dois como professor daquela universidade. Eu já havia cantado em períodos pequenos no Coral de Bebedouro, com o Maestro Pedro Pellegrino, de saudosa memória, mas eu era um menino e o coral era de adultos, o que fazia com que eu me sentisse bastante deslocado e inútil para o grupo.

No Coral da UFRRJ, regido pelo Maestro Nelson Nilo Hack, com o acompanhamento de Leopoldo Touza ao piano, aprendi, já adulto, uma enormidade sobre música, história e vida. O coral é um espaço privilegiado da diversidade e do aprendizado de convivência com as diferenças, unindo-as para consoarem, para se harmonizarem e produzirem um som único, de conjunto.

O Va pensiero foi uma das primeiras músicas que ali ensaiei e cantei. Língua estrangeira, partitura em mãos  com todos aqueles signos da escrita musical que eu buscava decodificar na forma de sons. O Maestro fazia um trabalho fenomenal ao apresentar essas obras contextualizando-as, traduzindo-as e buscando nosso entendimento do seu significado para colocarmos nas vozes e nas nossas expressões aquilo que entendíamos que correspondia aos textos e músicas que apresentávamos.

Fizemos naqueles anos diversos coros de grandes obras da história da música ocidental, e esse contato levou-me a querer conhecer mais de músicas, o que me levou a, hoje, poder apreciar um leque bastante ampliado e diversificado de gêneros musicais. Sou grato à sincronicidade de eventos que me levou a trilhar esse caminho. Se o pessoal, juntamente com o Maestro, não tivesse ido à minha sala de aula, muito provavelmente eu não teria o impulso de ir até o coral, dado, como já mencionei, a minha caipirice, uma timidez acachapante à época. Enfrentar palcos e um grupo multifacetado como aquele foram ingredientes importantes para que eu pudesse sobrepujar essa timidez. Fui monitor por dois anos e acabei me tornando um professor, encarando cotidianamente uma plateia geralmente bastante exigente. É certo que o coral tenha sido um dos catalizadores para que se desse esse desdobramento.

No meio musical, ao qual permaneci vinculado ainda por muitos anos, participando de corais e de grupos vocais aqui no Mato Grosso, pude conhecer grandes nomes da cena musical brasileira, bem como pesquisadores da educação musical. Fiz cursos, participei de oficinas e de painéis de regentes corais, estive a pouco de me tornar um regente coral de fato (por sorte, o mundo ficou livre dessa possibilidade pois eu me considerava, e era, um regente bem fraquinho), participei de concertos nas mais importantes cidades do Brasil e em algumas poucas no exterior. Mais importante do que tudo isso: fiz amizades muito especiais com pessoas dos mais variados matizes culturais, as quais acrescentaram e acrescentam muito à minha vida e enriquecem minhas memórias.

Os rumos que minha vida tomou foram sempre muito diferentes daquilo que eu planejava, daquilo que eu pretendia que fosse. Sinto que a música, e todo o seu entorno, tenha me dado um pontapé que me tirou do rumo a que me propunha quando jovem. E quando parei de "sofrer" por causa dos planos não realizados percebi que a vida me mostrava um trajeto muito mais rico e significativo do que o que qualquer dos meus planos poderia me trazer. Compreendi que somente planejamos com base no vivido e, muitas vezes, no que o meio social nos cobra como sendo o caminho ideal. Assim, jogamos para o futuro uma mera ampliação daquilo que conhecemos e do que somos capazes de entender nos anseios de nosso meio social. Ou seja, um futuro limitado ao passado ou pela nossa compreensão fragmentária de concepções alheias. Quando somos empurrados para o novo, para o inesperado, há uma incômoda sensação de desequilíbrio, de perda de controle. Isso, até percebermos que viver é, e deve ser, estar em constante desequilíbrio. Para que um pé se desloque para a frente, precisamos desequilibrar nosso corpo para a frente, e depois de novo, para que o outro pé se desloque, e assim sucessivamente. O equilíbrio de fato somente acontece quando nossa energia para de circular de um lado para outro em nosso corpo, em nossas células. É a morte!

Mas chega, por agora. Segue o vídeo que me despertou essas reflexões. Quem sabe começo a relatar mais de minhas vivências. Minha memória é voltada para pessoas que influenciaram meus caminhos, às quais sou grato por tudo que me propiciaram. Agradeço de coração inclusive a pessoas que eventualmente não gostaram ou não gostam de mim, pois elas foram e são balizas importantes para o meu caminhar.

Obs.: A imagem no vídeo é de muito boa qualidade, bastante diferente do que possa estar aparecendo aqui.


Coral do Metropolitan Opera House de Nova Iorque, gravado em 2002, coro dos escravos "Va pensiero", da ópera Nabuccodonosor, de Giuseppe Verdi.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Mensalão ianque: como os EUA compraram políticos/mídia traidores da pátria, ocasionando o golpe de 1964
(8nov2012)

O documentário "O dia que durou 21 anos" traz à luz depoimentos e dados documentais sobre o modus operandi do democrático governo do democrata John F. Kennedy, presidente dos Estados Unidos, pelo qual instalou na embaixada estadunidense no Brasil um verdadeiro escritório da CIA, verteu muitos milhões de dólares para políticos e para órgãos da imprensa que bem conhecemos ainda, infelizmente, elaborou programas de "ajuda" ao Brasil, financiou "institutos de pesquisas sociais", urdiu a destruição do presidente brasileiro, João Goulart, e o combate sem fronteiras a Leonel Brizola, ambos ungidos pelas urnas e ambos contrários aos interesses econômicos estadunidenses.

A sensação que tenho agora é a de que a história tenta se repetir. Os sintomas de hoje lembram muito os fatos daquela época. Nossos homens de Benz e o jornalismo tupiniquim não se pejam de encher os próprios bolsos às custas da perda de nosso Estado de Direito. Já entregaram antes o país, levando muitos milhares de pessoas ao pânico, ao medo do desmando militarista que constituiu retaguarda para uma elite vendida se esbaldar sobre outros milhões de brasileiros que viram seus direitos civis sumirem juntamente com seus sonhos de um país que avançava para um estágio de melhor desenvolvimento e de distribuição de renda. Aliás, distribuição de renda é o que mais irrita o poder capitalista, financeiro.

Outro golpe agora, nem pensar, né? Aos jovens que não viveram aquele período, e que muitas vezes reproduz acriticamente os dogmas impingidos pela nossa mídia (o PiG - Partido da imprensa Golpista), digo que tive um período de minha adolescência em que também fui "papagaio" que reproduzia o que o jornalismo impresso e de rádio e TV martelavam todo o tempo.

Ao sair de meu "nicho" no interior de São Paulo, onde nada disso parecia estar de fato acontecendo, deparei-me com uma realidade bruta no ambiente universitário. Alunos e professores sumiam "de repente" e ninguém dava uma explicação satisfatória sobre os fatos. Simplesmente as pessoas sumiam e ninguém da universidade queria falar a respeito. Nós acabávamos por saber, por vias diversas, que nossos colegas e professores tinham sido presos acusados de subversivos. E a maioria deles nunca mais voltou.

Um mundo abriu-se ante meus olhos estupefatos de interiorano, filho de trabalhador pobre. Aí passei a entender as posturas de meu pai ao longo dos muitos anos de minha infância e adolescência. Ele sempre demonstrou completo desprezo pelos "presidentes" militares, abominava o golpe de 1964. Ao mesmo tempo, na escola, uma professora nos fazia ler os "fantásticos" discursos do "presidente" Medici que eram sempre publicados na íntegra pela Folha de São Paulo. Tanto fiz que acabei forçando meu pai a assinar aquele jornal para eu poder ler os discursos e entabular o diálogo com a sala nas aulas daquela professora. Meu pai foi a única pessoa que conheci que torceu contra o Brasil na Copa de 1970, enquanto eu cantava fervorosamente os "90 milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração", e também o "eu te amo, meu Brasil, eu te amo; meu coração é verde amarelo branco azul anil". Achava muito certo os adesivos nos carros com o "Brasil, ame-o ou deixe-o". Foram muitas as discussões com meu pai, e depois percebi o quanto ele foi respeitoso e paciente para com minhas posturas imbecilizadas e equivocadas.

Como eu iria perceber que meu pai podia "saber mais" do que a professora de História (que defendia e justificava galhardamente, por exemplo, o Esquadrão da Morte) ou do que uma Folha de São Paulo, ou do que o Repórter Esso etc.? Meu pai era um simples e humilde ferroviário. Um homem forjado pela vida difícil, que lutou na revolução de 1924, ainda vivendo no Paraná, no pelotão do, então, General Cândido Mariano da Silva Rondon (fato que somente vim a saber depois de seu falecimento ao ler sua caderneta militar). Na revolução constitucionalista de 1932, já morando em Jundiaí, meu pai odiava ter que destruir eixos de locomotivas para, no torno mecânico, ter que fazer granadas para o governo paulista.

Fico corado de vergonha cada vez que rebusco em minha memória aqueles debates que tive com meu pai. Menos mal que durante o tempo em que fui universitário a realidade me estapeou sem dó e ainda tive tempo de abrir os ouvidos para as coisas que meu pai tinha a dizer sobre a vida. Mas foi pouco esse tempo. Eu queria ter tido muito mais. Nesse período meu pai agigantou-se ante meus olhos, apesar de continuar sendo aquele mesmo que antes eu buscava não ouvir. Enquanto eu papagaiava o discurso da classe dominante, meu pai dizia, às vezes com alguma exasperação: "Você nasceu em casa errada. Devia ter nascido na casa de alguém rico".

Poucos meses depois de minha graduação, meu pai faleceu. Sinto falta dele até hoje, pois certamente teríamos tertúlias infindáveis agora que meus ouvidos estão tão abertos para compreender a sabedoria do trabalhador, daquele que soube tirar da vida lições políticas preciosas. Daquele que, depois fui sabendo aos poucos, dominava como poucos a técnica e a arte das locomotivas, dos socorros de trens descarrilados. Daquele que criou, desenhou e fez um ferramentário específico e exclusivo para os trabalhos de socorro na ferrovia. Daquele que é meu norte nos terrenos da ética, da honestidade e da coerência.

Voltando ao filme/documentário, apresento abaixo o primeiro bloco, que já basta para se perceber como um jogo golpista se infiltra em nosso cotidiano com muita astúcia e de forma a não ser percebido até que seja muito tarde.

Ao jovem do século 21, somente peço que tente abrir de fato olhos e ouvidos para o mundo que o cerca, aproveitando tanto quanto for possível as experiências de quem já viveu muito e que pode estar bem ao seu lado sem que você faça a menor ideia disso. Conhecer a história, ou diversos pontos de vista sobre a história não tão antiga do Brasil, pode ser uma ferramenta excepcional para "desentupir" ouvidos, "desembaçar" a visão e "azeitar" o cérebro.



Quem me remeteu a rever este vídeo (que até já postei aqui há algum tempo) foi o excelente texto de Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania, intitulado "O mensalão ianque". Fica a dica para o leitor que me aturou até aqui dar uma passadinha por lá.

Como sempre, quando começo um texto não sei onde ele vai parar. Juro que nem tinha pensado em meu pai ao começar a escrever. Mas nesse aspecto político ele é minha raiz que acaba por aflorar mesmo nas vezes em que escrevo sobre política e não chego a citá-lo. Reparem que o "mensalão ianque" está no título desta postagem, mas meu texto se desalinhava (do verbo desalinhavar) à medida que é produzido. Ele toma as rédeas por si só e me leva para onde ele quer. É assim!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Histórias de minha família
(1out2012)

Quase que por um acidente de percurso pela internet, descobri a história de meu tio-avô Giuseppe Antonio Paganelli. Minha avó, Teresa Paganelli Lazzarotto, nascida em Forly, Itália, migrou para o Brasil após se casar com Antonio Lazzarotto. Meu avô Antonio era engenheiro ferroviário e no Brasil trabalhou na Ferrovia Curitiba - Paranaguá.

Antonio Lazzarotto (~1910)

Por Antonio Lazzarotto não pertencer a nenhuma linhagem "nobre", o casamento foi rejeitado pela família de Teresa, o que levou à migração do casal, sendo Teresa deserdada ao optar pelo casamento. Tudo isso aconteceu no final do século XIX, em Veneza, terra natal de meu avô e onde a família de minha avó parece ter sido bastante influente.

Antonieta Lazzarotto (~1920)

A primeira filha do casal Lazzarotto, Anita, nasceu no Brasil, em Curitiba, no ano de 1898. Outros filhos vieram, dentre eles meu pai, Lino, em 1907. O avô Antonio faleceu em São Paulo, no Hospital Santa Catarina, por volta de 1918, vítima de câncer. A filha mais nova do casal, Antonieta, nasceu pouco depois da morte de meu avô.

Teresa Paganelli Lazzarotto com as filhas Antonieta e Lilia e o neto Nelson (1928)

Meu pai contava que ele não aprendeu a falar italiano porque seus pais não falavam em italiano sequer entre eles dois. Aprenderam português com a maior brevidade possível e nunca utilizavam a língua italiana no âmbito doméstico. As crianças aprenderam a entender italiano porque o nôno Lazzarotto veio junto com o casal para o Brasil, e ele conversava principalmente em italiano. Mas parece que esse convívio foi curto, insuficiente para que as crianças dominassem a fala italiana.

Lilia, Antonieta e Anita Lazzarotto (~1930)

Contava-me também o meu pai que a única pessoa da família Paganelli que manteve contato com minha avó Teresa era um irmão mais novo dela, que, ao que se sabia por alto, tornara-se famoso tenor, cantando nos grandes teatros em todo o mundo. Esporadicamente eles trocavam correspondências.

Lino Lazzarotto (~1930)

Uma história interessante sobre meu bisavô refere-se ao registro de nascimento dos netos. A família morava em Santa Felicidade, Curitiba,numa chácara, e quando as crianças nasciam minha avó pedia ao sogro que fosse ao cartório na cidade para efetuar o registro do nascimento. O registro era feito em um livro de registros no cartório e, ao que parece, não se entregava ao registrante um documento, uma certidão de nascimento.

Quando meu pai nasceu, o mesmo procedimento se deu. Minha avó pediu ao nôno que fosse à cidade e registrasse o garoto como Lino Lazzarotto. O nôno foi à cidade, efetuou o registro e pronto. Não se tratou mais do assunto. O garoto estava registrado.

Teresa Paganelli Lazzarotto (~1945)

Quem conviveu com Teresa Paganelli Lazzarotto (minha mãe e minhas tias maternas, por exemplo), contavam que ela não tinha qualquer resquício do italiano em sua fala. A bem da verdade, minha avó foi professora de Português durante muitos anos.

Teresa Paganelli Lazzarotto em meio aos seus alunos (~1950)

Por ocasião do falecimento de minha avó, em 1955, meu pai, ferroviário que de longa data vivia no interior de São Paulo, fez a proeza de viajar de avião (um acontecimento pouco comum, à época, para assalariados) para Ponta Grossa de modo a acompanhar as cerimônias fúnebres de sua mãe. Após o enterro, os irmãos, então todos reunidos, resolveram que os homens passariam a sua parte da chácara deixada por minha avó para as irmãs. Para tanto, assinaram procurações que deixaram com um dos sobrinhos de meu pai, que era advogado. Ele trataria dos papéis necessários para o cumprimento da vontade dos tios.

Meu pai retornou a Bebedouro e após alguns dias recebeu correspondência do sobrinho advogado afirmando que não existia nenhum filho de Teresa registrado como Lino. Na data correspondente ao nascimento de meu pai havia o registro de um filho chamado Bartolomeu Lazzarotto. Todos acreditamos que ao ouvir de Teresa a solicitação de registrar o Lino, meu bisavô pensou que Lino seria um diminutivo de Bartolomeu (Bartolino), e decidiu, por sua conta e risco, registrar a criança como Bartolomeu.

Todos os documentos de meu pai, desde quando foi grumete aprendiz em Paranaguá, soldado do Exército em 1924 (revolução de 1924), registro de casamento, carteira de trabalho..., tudo, enfim, continha o nome Lino Lazzarotto. Menos no registro de nascimento.

Muitas histórias há para contar sobre a trajetória de meu pai, mas o que me levou a escrever esta postagem foi o fato de ter encontrado agora registros sobre meu tio-avô da família Paganelli com o qual minha avó manteve correspondência. Encontrei sobre ele as informações que traduzi a partir dos sítios Ancestry24 e Forgotten opera singers, que trouxe uma figura que para mim era etérea, pouco consistente, pouco concreta, tornando-a real e com uma trajetória interessante. Vejamos, pois, o que encontrei:


Giuseppe Paganelli
Giuseppe Antonio Paganelli
Nascido em 1882 em Forly, Itália; morreu em 4 de março de 1956 em Cape Town. Tenor lírico e professor de canto. Apresentando dons excepcionais em tenra idade, Giuseppe Paganelli aprendeu a tocar corneta durante seus anos escolares, e obteve um diploma profissional em uma escola de música de Veneza aos dezessete anos. Em 1902 ingressou na Academia de Santa Cecília em Roma e estudou teoria musical e composição, até que o professor de harmonia aconselhou-o a estudar produção vocal com o famoso professor Antonio Cotogni. Ele foi aceito como estudante e praticou por quatro anos. Após um concerto na Academia e foi convidado por um empresário de concertos romano para desempenhar o papel de tenor em "O barbeiro de Sevilha", e subsequentemente obteve um sucesso após outro em óperas na Itália, América do Norte, América do Sul, Grécia, Espanha, Austrália e Nova Zelândia.
Em 1926 ele acompanhou o Coro da Capela Sistina como tenor solo em um tour mundial. Após suas bem sucedidas performances em Cape Town, o professor W. H. Bell ofereceu-lhe as funções de mestre de canto e produtor de óperas no South Africa College of Music. Ele aceitou e sua primeira apresentação foi "O barbeiro de Sevilha", na qual ele e Timothy Farrell cantaram nos papéis principais. Essa foi seguida por outras óperas, como "Don Pasquale", "La traviata", "The secret marriage" (Cimarosa), "The marriage of Figaro" e "La sonnambula" (Bellini). Ele ficou seriamente doente em 1945; pouco depois compôs uma peça apaixonada em "Da Vinci's Last supper", a qual ele dirigiu, com Dirk Lorens cantando o papel de tenor. Entre seus alunos estavam sua esposa Eva Gain, e o soprano Albina Bini, a qual regularmente participou de suas produções. Após a II Guerra Mundial, Fiasconaro entrou no College como instrutor de canto e deu início a uma escola de ópera sob a supervisão do professor E. Chisholm, continuando, assim, o trabalho pioneiro de Paganelli.

Algumas das suas performances:
1905 Milão - Teatro Fossati - Don Pasquale (Malatesta)
1906 Veneza - Teatro Rossini - Barbiere di Siviglia (Almaviva)
1907 Forly – Teatro Comunale - Don Pasquale (Ernesto)
1908 Gênova - Teatro Margherita - Don Pasquale (Ernesto)
1909 Caracas - Teatro Municipal - Favorita (Fernando)
1910 Milão - Teatro Lirico - Mignon (Guglielmo)
1911 Porto Rico - Teatro Municipal – Manon (De Grieux)
1912 Cinfuegos - Teatro Municipal - Rigoletto (Duca)
1913 Turim - Teatro Regio - Don Pasquale (Ernesto)
1914 Havana - Teatro Payret - Favorita (Fernando)
1915 Gênova - Teatro Carlo Felice - Don Pasquale (Ernesto)
1916 Parma - Teatro Regio - Favorita (Fernando)
1917 Modena - Teatro Storchi - Mignon (Guglielmo)
1918 Milão - Teatro Lirico - Barbiere di Siviglia (Almaviva)
1919 Bolonha - Teatro Apollo - Barbiere di Siviglia (Almaviva)
1920 Pesaro - Teatro Rossini - Barbiere di Siviglia (Almaviva)
1921 Cairo - Kursaal Dalbagni - Sonnambula (Elvino)
1922 Cairo - Kursaal Dalbagni - Mignon (Guglielmo)
1923 Roma - Teatro Nazionale - Matrimonio segreto (Paolino)
Já postei há tempos algo sobre a minha família (ver aqui, aqui , aqui e aqui).

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Globo Repórter de 1975, endeusando a ditadura, expõe a face mais característica da Globo (21fev2012)

Aos mais jovens apresento este vídeo do Globo Repórter, programa apresentado em 1975, em que a Rede Globo exalta a maravilha da ditadura militar no Brasil, mostrando uma comparação entre o Brasil de antes e o Brasil de depois do golpe militar. E imaginem que isso era intensamente assistido pela população de todo o país, enquanto qualquer outro pensamento discordante era sufocado por meio de prisões, torturas, assassinatos, censura etc.

É impressionante como o discurso da direita e as razões que a Globo apresenta para que houvesse o golpe continuam sendo utilizados até hoje pela direita política, a elite conservadora e a grande mídia. O vídeo é altamente ilustrativo para, conhecendo-se a história, principalmente os discursos "moralistas" e "anti-comunistas", se olhar para os que hoje tentam golpear a ordem e o Estado de direito.

Há que se estar atento a tudo o que a "vênus platinada" (a cria queridinha da ditadura) tenta nos socar goela adentro todos os dias. E a família Marinho (Organizações Globo) está acompanhada pelas famílias Civitta (Abril Cultural), Frias (Folha de São Paulo) e Mesquita (O Estado de São Paulo) em seu intento de mostrar para o povo brasileiro um Brasil diferente do que aquele que aí está de verdade.

Esconde-se o que é bom e mostra-se o que é ruim. Se não houver coisa ruim suficiente, inventa-se.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Hoje é o meu Dia das Mães (5out2011)


1935

Se fosse viva, minha mãe completaria hoje 95 anos.

1936

Nunca me esqueço da "minha casa", com minha mãe elaborando cotidianamente uma mescla de cheiros e sabores em sua cozinha, em seu jardim e horta, com seu carinho e cuidados para com os filhos, e muito para mim, que era o seu caçula temporão.

sábado, 28 de maio de 2011

Requiem para Lícia (28mai2011)

Nesta madrugada faleceu a esposa de meu irmão, minha cunhada Lícia

Ela e meu irmão ficaram noivos em fevereiro de 1961, no Rio de Janeiro.

Casaram-se em dezembro de 1962, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro.

Aqui estão com sua primogênita, em 1966.

Esta foto foi tirada às vésperas do falecimento de meu pai. Minha cunhada está no centro da foto, com minha mãe à direita, os quatro filhos em torno dela e, lá no fundo o filho de minha irmã - um sobrinho meu sobre cujo aniversário fiz postagem neste blog em 1 de maio deste ano. Foto de 1978.

Aqui estão minha irmã e minha cunhada, em Assunción, Paraguai, nos dias do casamento de sua filha primogênita. Por uma triste coincidência, ambas padeceram do mesmo mal: esclerose lateral amiotrófica. Minha irmã faleceu em 1995. Foto de 1985.

Foto de 1990, minha prima e seu marido, e meu irmão e a Lícia. São Paulo.

Outubro de 2002, Bebedouro. Casamento de minha sobrinha, filha do meu irmão mais à esquerda (na foto). Nós, os irmãos Lazzarotto, nos reunimos principalmente em casamentos e velórios da família. Amanhã será uma das ocasiões em que não gostamos de nos reunir.

O casal em Nova Iorque, quando foram visitar os filhos e netos que moravam nos Estados Unidos à época. Foto de 2005.

Na Igreja Assembléia de Deus, em Barretos, também em 2005. Meu irmão é pastor aposentado.

Barretos, em 2007.

Barretos, em 2009.

Barretos, em agosto de 2009. Minha cunhada com o primeiro (e o único que pôde conhecer) bisneto. Juntos estão sua filha (à direita), a mãe do bebê (a mais alta, atrás), uma neta e meu irmão.

Guarulhos, fevereiro de 2010. Aniversário de 69 anos de meu irmão.

São algumas fotos de alguém que marcou sua passagem em minha vida pelo seu otimismo, calor humano e a fantástica hospitalidade baiana.

Meu último encontro com ela foi neste ano, quando fui visitá-la na UTI do Hospital de Base em São José do Rio Preto. Ao me ver, ela me agraciou com um sorriso luminoso, apesar de não poder falar e de todos os incômodos de todos os tubos a que estava ligada.

Uma vida abençoada que marcou e marcará a vida de todos que com ela conviveram. Sempre um sorriso, sempre a esperança. Nunca uma queixa.

domingo, 1 de maio de 2011

Aniversário de um sobrinho
(1mai2011)

Tenho um sobrinho que hoje faz 42 anos.

Primogênito de minha irmã, seu nascimento foi precedido de peripécias que agora me vem à mente.

Meu pai, preocupado com o fato de minha irmã precisar ir a qualquer momento para a maternidade, comprou um carro. Carro usado, pois naquela época ter carro, mesmo usado, era luxo que poucos tinham.


Nosso carro até então, e desde 1966, era um Ford 1936 (parecido com o da foto acima, só que com trinta anos de uso), quatro portas, que bebia uma gasolina danada. O carro também tinha problemas de freio. Para conseguir parar numa esquina, o motorista tinha que começar a apertar o freio seguidamente desde o meio do quarteirão. Para dar pressão do óleo do freio.


O "novo" carro foi um Dauphine, da Renault, também quatro portas e bem, bem usado. A foto acima é ilustrativa, para conhecimento dos leitores mais jovens.

Ficamos com ele numa tarde, e naquela noite tivemos que ir até uma farmácia comprar remédios para minha irmã. Quem disse que o carro pegava? Foi um tal de empurrar esse carro em frente de casa, para pegar no tranco, e fazer o mesmo no centro da cidade, depois da compra dos remédios. Carrinho pesado, rapaz! Eu tinha treze anos, e empurrar aquele carro foi difícil.


No dia seguinte meu pai devolveu o carro e logo em seguida conseguiu um fusca 1960, cor azul pastel (que eu sempre achei que seria um verde claro, mas paciência!). A foto acima é de um fusca 1960 e a coloco também para que os jovens leitores saibam do que estou falando.

Parece que o nascimento estava esperando pelo carro.

Na primeira noite em que ficamos com o fusca, meu cunhado o levou para casa para caso fosse necessário.

Nessa madrugada minha irmã foi para a maternidade, em trabalho de parto, e o bebê nasceu logo de manhã.


Aí na foto, o garoto, dez dias depois que saiu da maternidade.

No dia de seu batizado. Os padrinhos foram meu irmão mais velho e sua esposa.

Nesse mesmo dia, tiramos essa foto, eu, com ele no colo e os primos e primas (imagina a idade desse povo hoje!).

Antes de começar a andar, já ficava em pé no berço.

Logo começou a exercitar os passos dentro de um andador. E, pela cara, gostou da experiência.

Já um pouco maior, fomos à praia (ele foi muitas vezes à praia com seus pais, mas essa é uma das primeiras vezes). Aí está ele enfrentando as ondas sob minha responsabilidade.

Algum tempo depois, teve contato com o mundo das celebridades. Aí ele aparece carregado pelo Pelé. É esse mesmo, o Edson Arantes do Nascimento.

Na mesma ocasião, ele conheceu Émerson Leão, que ainda era jogador do Palmeiras, da seleção etc.
O outro lourinho é o irmão dele.

Ainda bem novo, teve um casamento relâmpago. Durou o quanto dura uma festa junina.

Como bom aluno de escola confissional, fez sua primeira comunhão.

Teve um segundo casamento relâmpago, que durou tanto quanto o primeiro.

Foi campeão de vôlei. Várias vezes. Essa parece ter sido a primeira.

Ganhou medalhas de natação várias vezes em sua carreira esportiva.

Nas horas vagas, empinava bicicleta. Se bem que seu irmão fosse bem melhor nesse esporte (até com motos, pelo que eu saiba) e garanta até hoje que esta foi a única vez que ele conseguiu fazer isso.

Como membro de família italiana, participava bem feliz das festas com os parentes. Nesse caso, era uma festa de natal.

Campeão estadual de vôlei. Não disse que ele teve vários títulos de campeão?

Concluiu o, então, Segundo Grau.


Depois veio fazer curso superior em universidade pública em Cuiabá. Achando que ia voltar depois que se formasse...

Ledo engano. Formou-se e ficou.

Conheceu uma bela morena cuiabana, casou-se e por aqui ficou. E esse casamento não foi como os das outras fotos acima. Esse é verdadeiro e duradouro.

Na foto acima estão ele e sua filha mais velha.

Esses são seus filhos.

A foto da morena cuiabana que roubou seu coração eu não tenho, porque ela foge de fotos...

Fico contente que eles formam uma família unida, alegre e parabenizo meu sobrinho pelo seu aniversário hoje.

E aproveito para parabenizar sua esposa, que fará aniversário amanhã.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Fotos antigas de Bebedouro,
minha cidade natal
(15abr2011)

Uma vez que homenageei Cuiabá em seu aniversário, gostaria agora de apresentar algumas fotos antigas que disponho da cidade onde nasci, que fará aniversário no dia 3 de maio.


Este prédio acima abrigava a Prefeitura Municipal no início do século XX. Pelo menos era isso que dizia em um poster em um supermercado de Bebedouro. Posteriormente vim a constatar que era o prédio da Câmara Municipal. E também consegui outras fotos onde ela aparece (obrigado ao Bebedouro em Foco, do Facebook). Mais abaixo as colocarei.

É uma pena que tal edificação tenha sido demolida para dar lugar a outra, mais "moderna".


Este é o prédio que foi construído para abrigar tanto a Prefeitura Municipal quanto a Câmara dos Vereadores.


Atualmente ele já foi ampliado nas laterais, mantendo o mesmo estilo, e a Câmara dos Vereadores ocupa um outro espaço na cidade.

A seguir apresento algumas fotos da Estação Ferroviária em momentos diversos:

Em 1904, quando estava em construção.

Em 1912, ainda pequenina.

Os peões e cavaleiros comuns, à época, na cidade.

 A estação na década de 1930.

Por volta, também, da década de 1930.

Os trens eram o principal meio de transporte de passageiros e carga.

Não havia estradas asfaltadas que ligassem a imensa maioria das cidades do interior paulista com a capital.

A viagem de trem era agradável, demorada.

Os trens e as viagens de férias neles são parte importante de minha vida. Nasci à beira da ferrovia, cresci vendo e ouvindo os trens no pátio de manobras, nas oficinas de locomotivas, na montagem dos trens de carga. Aquelas imensas máquinas a vapor levando e trazendo gente e cargas, passando ao lado da casa onde nasci.



Minha casa ficava na direção do canto esquerdo inferior desta foto (fora da foto, evidentemente).







Nasci numa vila de ferroviários, a Vila Paulista. Todos os nossos vizinhos trabalhavam na ferrovia e esta era o assunto dominante nas conversas, no nosso cotidiano. Esse pátio de manobras era parte da visão que eu tinha da janela do meu quarto quando garoto. A vila de ferroviários que está na foto acima é a da Estrada de Ferro São Paulo-Goyas, e ficava ao lado do campo do Goyas, onde agora está o Velório Municipal. Acredito que alguns vestígios dessas casas ainda existem na acima da Campos Salles, a partir da esquina do velório em direção ao centro da cidade, naquelas primeiras quadras.

Víamos os parentes chegando ou partindo, abanando as mãos nas janelas do trem. Alegria, tristeza, saudade, nostalgia. Uma série de sentimentos se misturavam nessas horas.

Memórias de menino.

Este era o ambiente de trabalho de meu pai, as oficinas de locomotivas. No caso, essa foto mostra a oficina da EF São Paulo-Goyaz, que acredito depois foi incorporada pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Esse barracão, chamado depósito, ficava ao lado da Vila Paulista.


As compras do mês para a casa, o "pedido", eram feitas na Cooperativa da Companhia Paulista, que ficava na Rua Vicente Paschoal pouco acima do final da Rua Francisco Inácio. Eu ia com minha mãe, que lá preenchia um formulário com a lista de produtos, inserindo, em frente aos nomes dos produtos de que necessitávamos, a quantidade a ser comprada. A entrega era feita por carroceiros, em casa. A conta, se bem me lembro, vinha na forma de desconto no próximo hollerith de meu pai. Tudo era contadinho, controladinho. Nem pensar em gastos com supérfluos. E isso é tudo que criança quer: supérfluos. Minha mãe, coitada, teve muita paciência comigo, porque eu aprontava um chororô danado por não se comprar as guloseimas doces que eu queria. Em casa não faltavam doces, mas eram caseiros. Aqueles industrializados exerciam um fascínio miserável em mim - e acho que em toda criança. Aqui abaixo está a foto da Cooperativa.


Havia duas cooperativas em Bebedouro, Uma, que não era dos ferroviários, e que ficava na Rua Brandão Veras, perto do meio da quadra entre a Tobias Lima e a Antonio Alves de Toledo. Atualmente é um estacionamento grande. Essa era chamada, não sei por que, de Rafa. A cooperativa dos ferroviários era chamada Rafinha. Vai saber por quê!