Quem sou eu

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Bebedouro, São Paulo, Brazil
Geólogo e professor aposentado, trabalho este espaço como se participasse da confecção de um imenso tapete persa. Cada blogueiro e cada sitiante vai fazendo o seu pedaço. A minha parte vai contando de mim e de como vejo as coisas. Quando me afasto para ver em perspectiva, aprendo mais de mim, com todas as partes juntas. Cada detalhe é parte de um todo que se reconstitui e se metamorfoseia a cada momento do fazer. Ver, rever, refletir, fazer, pensar, mudar, fazer diferente... Não necessariamente melhor, mas diferente, para refazer e rever e refletir e... Ninguém sabe para onde isso leva, mas sei que não estou parado e que não tenho medo de colaborar com umas quadrículas na tecedura desse multifacetado tapete de incontáveis parceiros tapeceiros mundo afora.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Quem mandou se meter com mobilidade social?
(4out2012)


O assunto é o julgamento da AP 470 no STF. Instado a me posicionar sobre o assunto no facebook, acabei respondendo tão longamente que achei por bem compartilhar aquela linha de raciocínio aqui. Pois bem: o que me preocupa não é a condenação ou não dos réus. Os problemas estão nos fatores político-partidários envolvidos.

Agendar sessões de um julgamento desses para serem concluídas exatamente na véspera das eleições é sintomático dos interesses da grande mídia em usar o julgamento para tentarem repor os conservadores no poder. Há processos de denúncias anteriores ao do "mensalão" do PT que envolvem PSDB, DEM, FHC e Serra, por exemplo, que foram deixados para trás. Até o mundo mineral sabe que FHC comprou os votos para aprovar no Congresso a emenda constitucional que permite a reeleição, e, pior, já valendo para o presidente então em exercício: FHC.

O grande exercício da mídia, agora com a inestimável ajuda do STF, é fazer parecer que corrupção no Brasil é um fenômeno petista. Se há ou houve petistas corruptos, que a justiça se faça implacável, é claro! Mas "pau que dá em Chico também deve dar em Francisco", não é não?

Capa da Folha de 13 de maio de 1997

A direita pode voltar ao poder legitimamente se apresentar propostas que sejam palatáveis à maioria da população. Mas ela não tem propostas, a não ser aquelas que já conhecemos sobejamente, de tempos imemoriais: a dilapidação da coisa pública e a redução dos direitos sociais e trabalhistas em favor da eterna classe dominante. Só isso, sem qualquer arremedo digno de se chamar de política social e de diminuição das desigualdades sociais.

O que me dá medo é termos juízes feitos reféns da mídia. Como ninguém é santo e nem perfeito, todos podem ser vítimas de ameaças midiáticas. Já circula pela net que sobre o Joaquim Barbosa pesa há anos uma denúncia de violência doméstica feita por sua esposa, que teria sido espancada por ele em um de seus acessos de ira. Devem ser boatos, mas coisas desse tipo podem pesar como uma espada sobre a cabeça dos juízes. Uma mídia venenosa pode transformar boatos em verdades por meio de sua exaustiva repetição. Agora vemos como ela bate diuturnamente na tecla do julgamento do STF, endeusando quem vota como ela quer e demonizando quem vota contra seus desejos.

Por possivelmente terem "rabo de palha" e por medo da mídia, os juízes inauguram uma nova forma de julgamento com base em indícios, em provas tênues. Indícios servem para indiciar. Para se julgar e condenar há que se provar a culpa do acusado.

Se um funcionário de uma universidade federal cometesse um desfalque nas contas da instituição, distribuindo esse dinheiro para um determinado grupo, a condenação, nos termos do atual entendimento do STF, envolveria esse funcionário e toda a sua linha de chefias, mesmo não se tendo prova alguma de isso lhe foi proposto por ela. Ou seja, no extremo, poder-se-ia chegar até os Pró-reitores, ao Reitor, ao Ministro da Educação ou ao Presidente da República, que estão na ponta última de sua linha de chefia. Esse é o risco de se condenar sem provas sólidas. O uso político. A medida do alcance da punição seria dada pela sanha punitiva dos juízes, com base em seus credos e pendores pessoais.

Discordo de diversos aspectos que fundamentam as ações do governo de Dilma Rousseff, mas vou defender seu mandato sempre, pois esse lhe foi conferido num processo legítimo pelas urnas. Nunca defendi  e nem defenderei a defenestração de políticos eleitos legitimamente, exceto em casos de ocorrência de comprovada irregularidade, após julgamento justo e com direito pleno a defesa, com base em provas reais, irrefutáveis. O mundo da política é, no geral, um ninho de cobras, envolvendo altas somas em dinheiro e interesses muito grandes do mundo empresarial, sempre pronto a tomar nacos cada vez maiores desses recursos. Quem se contrapõe aos seus interesses pode ser vítima de armações imensas, de modo a ser tirado do caminho. Pode inclusive sofrer um "acidente fatal".

Derrubar políticos, como ocorreu no Paraguai, é golpe, e de golpe estamos cheios até a tampa. O STF está julgando com base em ilações, muitas delas produzidas pela mídia, e em suposições apresentadas pelo Procurador Gurgel. Uma mudança desse quilate no ordenamento jurídico que está sendo feita pelo STF abre uma avenida para os golpistas de plantão. Aliás, ontem o Sr. Gurgel afirmou textualmente que espera que o julgamento produza efeitos nestas eleições. Ele não se aguentou e acabou explicitando sua intenção de criar um fato político que fortaleça os adversários do governo. Quem está na mira do golpe é a Dilma, não tenha dúvida disso.

Um amigo me perguntou no facebook o que eu acho de Joaquim Barbosa e de Lewandovski. Não se trata de Barbosa ou Lewandovski, mas do contexto, do todo que está em sendo mobilizado pelo nosso (certamente) conservador e elitista sistema judiciário.

Juízes são geralmente oriundos de famílias mais abastadas que puderam educar seus filhos em escolas de mais renome e tradição (os "Largos de São Francisco" da vida). O que se pode esperar desses filhinhos de papai quando atingem a magistratura? Eles virão carregados de seus conceitos e preconceitos, despejando-os em seus pareceres e julgamentos. Só isso.

Dia desses assisti a uma entrevista do Stedile em que ele conta que uma preocupação exposta por oponentes do MST era a de que um advogado formado nos cursos de Direito que algumas universidades estão proporcionando ao MST (UFPR, por exemplo) poderá no futuro ser um juiz. ESSE É O MEDO DELES. Alguém com origem humilde e diferenciada e com formação politica baseada na experiência dos movimentos populares "invadindo" um espaço que até agora é praticamente exclusivo para os filhos da elite. Já pensou um juiz, um desembargador ou um ministro dos tribunais superiores oriundo do MST? Isso deve arrepiar os cabelos do... e da nuca do "povo da Casa Grande".

Esse povo da "Casa Grande" entende que quem é da senzala deve lá permanecer, e ponto final. É do MST? Se der muito trabalho, dá-se um pedacinho de terra e uma enxada para ele se esfalfar no campo. Se der muito mais trabalho, crie-se tumulto que o envolva e coloque-o na cadeia. Na cadeia eles estarão nas mãos de quem? Primeiramente da polícia, o cão de guarda da elite. Em seguida nas mãos do JUDICIÁRIO, pronto para criminalizar qualquer atividade de rebeldia contra o status quo.

Mas estudar, não! Isso não é para filho de pobre, de índio ou de camponês. Principalmente estudar Direito. Horror dos horrores!!!!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Histórias de minha família
(1out2012)

Quase que por um acidente de percurso pela internet, descobri a história de meu tio-avô Giuseppe Antonio Paganelli. Minha avó, Teresa Paganelli Lazzarotto, nascida em Forly, Itália, migrou para o Brasil após se casar com Antonio Lazzarotto. Meu avô Antonio era engenheiro ferroviário e no Brasil trabalhou na Ferrovia Curitiba - Paranaguá.

Antonio Lazzarotto (~1910)

Por Antonio Lazzarotto não pertencer a nenhuma linhagem "nobre", o casamento foi rejeitado pela família de Teresa, o que levou à migração do casal, sendo Teresa deserdada ao optar pelo casamento. Tudo isso aconteceu no final do século XIX, em Veneza, terra natal de meu avô e onde a família de minha avó parece ter sido bastante influente.

Antonieta Lazzarotto (~1920)

A primeira filha do casal Lazzarotto, Anita, nasceu no Brasil, em Curitiba, no ano de 1898. Outros filhos vieram, dentre eles meu pai, Lino, em 1907. O avô Antonio faleceu em São Paulo, no Hospital Santa Catarina, por volta de 1918, vítima de câncer. A filha mais nova do casal, Antonieta, nasceu pouco depois da morte de meu avô.

Teresa Paganelli Lazzarotto com as filhas Antonieta e Lilia e o neto Nelson (1928)

Meu pai contava que ele não aprendeu a falar italiano porque seus pais não falavam em italiano sequer entre eles dois. Aprenderam português com a maior brevidade possível e nunca utilizavam a língua italiana no âmbito doméstico. As crianças aprenderam a entender italiano porque o nôno Lazzarotto veio junto com o casal para o Brasil, e ele conversava principalmente em italiano. Mas parece que esse convívio foi curto, insuficiente para que as crianças dominassem a fala italiana.

Lilia, Antonieta e Anita Lazzarotto (~1930)

Contava-me também o meu pai que a única pessoa da família Paganelli que manteve contato com minha avó Teresa era um irmão mais novo dela, que, ao que se sabia por alto, tornara-se famoso tenor, cantando nos grandes teatros em todo o mundo. Esporadicamente eles trocavam correspondências.

Lino Lazzarotto (~1930)

Uma história interessante sobre meu bisavô refere-se ao registro de nascimento dos netos. A família morava em Santa Felicidade, Curitiba,numa chácara, e quando as crianças nasciam minha avó pedia ao sogro que fosse ao cartório na cidade para efetuar o registro do nascimento. O registro era feito em um livro de registros no cartório e, ao que parece, não se entregava ao registrante um documento, uma certidão de nascimento.

Quando meu pai nasceu, o mesmo procedimento se deu. Minha avó pediu ao nôno que fosse à cidade e registrasse o garoto como Lino Lazzarotto. O nôno foi à cidade, efetuou o registro e pronto. Não se tratou mais do assunto. O garoto estava registrado.

Teresa Paganelli Lazzarotto (~1945)

Quem conviveu com Teresa Paganelli Lazzarotto (minha mãe e minhas tias maternas, por exemplo), contavam que ela não tinha qualquer resquício do italiano em sua fala. A bem da verdade, minha avó foi professora de Português durante muitos anos.

Teresa Paganelli Lazzarotto em meio aos seus alunos (~1950)

Por ocasião do falecimento de minha avó, em 1955, meu pai, ferroviário que de longa data vivia no interior de São Paulo, fez a proeza de viajar de avião (um acontecimento pouco comum, à época, para assalariados) para Ponta Grossa de modo a acompanhar as cerimônias fúnebres de sua mãe. Após o enterro, os irmãos, então todos reunidos, resolveram que os homens passariam a sua parte da chácara deixada por minha avó para as irmãs. Para tanto, assinaram procurações que deixaram com um dos sobrinhos de meu pai, que era advogado. Ele trataria dos papéis necessários para o cumprimento da vontade dos tios.

Meu pai retornou a Bebedouro e após alguns dias recebeu correspondência do sobrinho advogado afirmando que não existia nenhum filho de Teresa registrado como Lino. Na data correspondente ao nascimento de meu pai havia o registro de um filho chamado Bartolomeu Lazzarotto. Todos acreditamos que ao ouvir de Teresa a solicitação de registrar o Lino, meu bisavô pensou que Lino seria um diminutivo de Bartolomeu (Bartolino), e decidiu, por sua conta e risco, registrar a criança como Bartolomeu.

Todos os documentos de meu pai, desde quando foi grumete aprendiz em Paranaguá, soldado do Exército em 1924 (revolução de 1924), registro de casamento, carteira de trabalho..., tudo, enfim, continha o nome Lino Lazzarotto. Menos no registro de nascimento.

Muitas histórias há para contar sobre a trajetória de meu pai, mas o que me levou a escrever esta postagem foi o fato de ter encontrado agora registros sobre meu tio-avô da família Paganelli com o qual minha avó manteve correspondência. Encontrei sobre ele as informações que traduzi a partir dos sítios Ancestry24 e Forgotten opera singers, que trouxe uma figura que para mim era etérea, pouco consistente, pouco concreta, tornando-a real e com uma trajetória interessante. Vejamos, pois, o que encontrei:


Giuseppe Paganelli
Giuseppe Antonio Paganelli
Nascido em 1882 em Forly, Itália; morreu em 4 de março de 1956 em Cape Town. Tenor lírico e professor de canto. Apresentando dons excepcionais em tenra idade, Giuseppe Paganelli aprendeu a tocar corneta durante seus anos escolares, e obteve um diploma profissional em uma escola de música de Veneza aos dezessete anos. Em 1902 ingressou na Academia de Santa Cecília em Roma e estudou teoria musical e composição, até que o professor de harmonia aconselhou-o a estudar produção vocal com o famoso professor Antonio Cotogni. Ele foi aceito como estudante e praticou por quatro anos. Após um concerto na Academia e foi convidado por um empresário de concertos romano para desempenhar o papel de tenor em "O barbeiro de Sevilha", e subsequentemente obteve um sucesso após outro em óperas na Itália, América do Norte, América do Sul, Grécia, Espanha, Austrália e Nova Zelândia.
Em 1926 ele acompanhou o Coro da Capela Sistina como tenor solo em um tour mundial. Após suas bem sucedidas performances em Cape Town, o professor W. H. Bell ofereceu-lhe as funções de mestre de canto e produtor de óperas no South Africa College of Music. Ele aceitou e sua primeira apresentação foi "O barbeiro de Sevilha", na qual ele e Timothy Farrell cantaram nos papéis principais. Essa foi seguida por outras óperas, como "Don Pasquale", "La traviata", "The secret marriage" (Cimarosa), "The marriage of Figaro" e "La sonnambula" (Bellini). Ele ficou seriamente doente em 1945; pouco depois compôs uma peça apaixonada em "Da Vinci's Last supper", a qual ele dirigiu, com Dirk Lorens cantando o papel de tenor. Entre seus alunos estavam sua esposa Eva Gain, e o soprano Albina Bini, a qual regularmente participou de suas produções. Após a II Guerra Mundial, Fiasconaro entrou no College como instrutor de canto e deu início a uma escola de ópera sob a supervisão do professor E. Chisholm, continuando, assim, o trabalho pioneiro de Paganelli.

Algumas das suas performances:
1905 Milão - Teatro Fossati - Don Pasquale (Malatesta)
1906 Veneza - Teatro Rossini - Barbiere di Siviglia (Almaviva)
1907 Forly – Teatro Comunale - Don Pasquale (Ernesto)
1908 Gênova - Teatro Margherita - Don Pasquale (Ernesto)
1909 Caracas - Teatro Municipal - Favorita (Fernando)
1910 Milão - Teatro Lirico - Mignon (Guglielmo)
1911 Porto Rico - Teatro Municipal – Manon (De Grieux)
1912 Cinfuegos - Teatro Municipal - Rigoletto (Duca)
1913 Turim - Teatro Regio - Don Pasquale (Ernesto)
1914 Havana - Teatro Payret - Favorita (Fernando)
1915 Gênova - Teatro Carlo Felice - Don Pasquale (Ernesto)
1916 Parma - Teatro Regio - Favorita (Fernando)
1917 Modena - Teatro Storchi - Mignon (Guglielmo)
1918 Milão - Teatro Lirico - Barbiere di Siviglia (Almaviva)
1919 Bolonha - Teatro Apollo - Barbiere di Siviglia (Almaviva)
1920 Pesaro - Teatro Rossini - Barbiere di Siviglia (Almaviva)
1921 Cairo - Kursaal Dalbagni - Sonnambula (Elvino)
1922 Cairo - Kursaal Dalbagni - Mignon (Guglielmo)
1923 Roma - Teatro Nazionale - Matrimonio segreto (Paolino)
Já postei há tempos algo sobre a minha família (ver aqui, aqui , aqui e aqui).

sábado, 29 de setembro de 2012

Vídeo de 2011: "Falluja: uma geração perdida?"
(29set2012)

Um vídeo que mostra o uso de Fósforo Branco nos ataques estadunidenses em Falluja, Iraque. Os EUA utilizaram lixo atômico clandestinamente em seus armamentos. Crianças com deformações severas têm nascido desde então, numa proporção alarmante. Boa parte vive apenas algumas poucas horas depois de nascidas. Isso a nossa grande mídia, vira-latas dos EUA, não mostra.

Iraquianos mortos em combate foram queimados pelo fósforo branco, queimados de dentro para fora, sendo preservados os ossos e mantidas intactas suas vestimentas.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

“Em cada batalhão da PM, um grupo de extermínio”
(26set2012)


Reproduzido de Escrevinhador (destaques meus)

Por Tatiana Merlino, na Caros Amigos

Primeiro, identificam-se os “bilões” de cada batalhão, que, na gíria da Polícia Militar (PM), são os policiais mais violentos. Depois, eles são chamados para integrar os “caixas-dois”, como são conhecidos os grupos de extermínio de cada batalhão. Para o “trabalho”, geralmente usam viaturas da Rota e da Força Tática – ou Forjas Trágicas, como são apelidadas. O caixa-dois é formado por três integrantes, sendo um deles escoltado até um local seguro, onde tira a farda, coloca uma roupa civil e usa uma moto ou um carro para orientar ou executar os assassinatos. Geralmente, atuam em sua área de circunscrição de trabalho.

Quando o serviço acaba, chega uma viatura, encarregada de recolher as cápsulas e pedir para o pessoal do comércio lavar o local. O importante é adulterar a cena do crime. Em seguida, coloca-se a vítima no carro, e, mesmo que esteja morta, ela é levada ao hospital. Quando necessário, usam o “kit vela” ou “kit flagrante”: uma porção de entorpecente e uma arma fria colocada na mão do cadáver, para justificar o homicídio. Às vezes, também deixam um celular junto à vítima.

“O caixa-dois funciona quando não dá para fritar na resistência [justificar o assassinato como decorrência de suposto confronto com a PM]“, explica um policial civil, que investigou grupos de extermínio formados por policiais militares. “A maior parte deles participa do negócio, mesmo quem não mata. É até uma questão de subordinação hierárquica ao comando.”

Na maioria dos casos de extermínio, seja na capital, litoral ou interior, o modus operandi das ações é praticamente o mesmo. Atiradores em carros de cores escuras, vestindo toucas ninja e roupas pretas, e manejando, na maioria das vezes, armas de calibres 9mm, .380 ou .40.


Punição

A regra do batalhão é: o PM se negou a torturar, a matar? Vai para o PAO: Pelotão de Apoio Operacional, espécie de punição dada pelo comando de alguns batalhões da PM paulista a policiais que se negam a participar de ilegalidades e abusos, como torturas, matanças e grupos de extermínio. O castigo consiste em fazer ronda do lado de fora do batalhão, ficar 12 horas de pé, incomunicável com os outros membros da tropa e sem poder comer, urinar ou evacuar. Os que ousarem se solidarizar com os castigados são punidos da mesma maneira.

O major de um dos batalhões onde o PAO é aplicado intimida sua tropa batendo no peito e gritando: “Eu sou Highlander, vocês me respeitem!”. Highlander é um grupo de extermínio chamado dessa maneira, porque corta as cabeças e mãos das vítimas. O major incentiva a matança de “ladrões” e dispensa do trabalho quem matar mais. Manda para o PAO quem não quiser entrar para o “caixa-dois”.

Essas graves acusações são feitas pelo policial civil, citado anteriormente, e por um sargento da Polícia Militar – ambos não compactuaram com ilegalidades cometidas por membros de suas corporações. O primeiro conversou com a Caros Amigos na condição de sigilo de identidade, sob alegação de estar sendo perseguido e ter sofrido ameaças e duas tentativas de homicídio, após ter apresentado relatórios de investigação sobre grupos de extermínio.

A denúncia sobre o PAO também foi levada ao Conselho de Defesa da Pessoa Humana (Condepe), que vem sendo procurado por policiais civis e militares que não estão de acordo com torturas, assassinatos e desaparecimentos que vêm acontecendo em São Paulo. “Primeiro vieram investigadores da polícia civil, depois da PM – soldado, sargento, tenente e até capitão –, e, por fim, delegados de polícia. Todos deram um quadro que, para nós, é muito grave. São pessoas que ficam na seguinte situação: ‘ou eu entro para a bandidagem ou sou punido’”, relata Ivan Seixas, presidente da instituição. Segundo ele, tais funcionários públicos estão sofrendo ameaças de morte, de punição e processos administrativos e disciplinares. As denúncias que o policial passou à reportagem da Caros Amigos também foram encaminhadas a órgãos públicos fiscalizadores da lei.


Higiene social 

De acordo com o policial civil, os grupos de extermínio funcionam “numa égide de controle e higienização social, para prestigiar o comando e o governo, para abaixar índices de criminalidade”, explica. “Assim, os vagabundos sabem que, se roubarem naquela determinada cercania, vão para o saco, morrem. Isso provoca um êxodo, o cara migra”. Segundo ele, ao ajudar a baixar as estatísticas de violência nas suas regiões de trabalho, os policiais recebem proteção do comando, sendo favorecidos por melhores escalas, bicos, armamentos, viaturas e outros equipamentos táticos.

Um dos grupos de extermínio que atuava dessa maneira, os Highlanders, era formado por policiais da Força Tática do 37º Batalhão, na Zona Sul de São Paulo. Eles atuavam no bairro do Jardim Ângela, matando as vítimas e jogando os corpos decapitados em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Aproveitando a situação, os policiais dos grupos de extermínio também cometeriam crimes para matar seus desafetos. Paralelamente a isso, também matam por encomenda, “modalidade” de assassinatos chamada de “firma”. “É quando parte do ideal funcional vai para o ideal capitalista”. Tal modalidade estaria, assim, diretamente relacionada com os casos de corrupção. “A corrupção e a mortandade são institucionalizadas”. O policial civil relata, ainda, que existe um acordo entre policiais e criminosos sobre a divisão de caixas eletrônicos. Na firma, também entram disputas por caça-níqueis, loterias clandestinas e bingos.

Leia a reportagem completa na edição 186 de Caros Amigos nas bancas ou na loja virtual.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Meu nome também é Lula
(19set2012)


Por Eduardo Guimarães


Estando em pleno gozo de todos os direitos políticos e de todas as demais garantias individuais concernentes à cidadania brasileira, diante da campanha hedionda de difamação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ora promovida por seus adversários políticos (declarados e enrustidos), venho fazer uma declaração.

Acompanho a trajetória de vida do ex-presidente desde a campanha eleitoral de 1989. Dá quase um quarto de século. A cada dia desses 23 anos, com intervalo de nem uma centenas de dias, se tanto, vi e ouvi todo tipo de acusação contra ele. Todo tipo que se possa imaginar.

Naquele 1989, os mesmos grandes meios de comunicação que hoje, após tanto tempo, continuam lançando acusações análogas às de outrora contra o ex-operário, chegaram a convencer o Brasil de que ele era mais rico do que o adversário Fernando Collor por morar em uma casa emprestada por um empresário.

Acompanhei a vida de Lula, desde então. Como tantos sabem, sobretudo seus inimigos, ele não enriqueceu com a política. Muito pelo contrário, seu patrimônio – sobre o qual seus adversários construíram tantas farsas – não é tão maior do que era quando disputou a primeira eleição presidencial, há 23 anos.

Lula poderia ter tirado quanto quisesse da política, se quisesse…

Ele nunca se desviou do caminho que aquele que acompanhou a sua vida sabe que era o que verdadeiramente perseguia, o de dar ao filho do “peão” oportunidades menos inferiores às dos filhos dos janotas empertigados que se julgam melhores do que o resto por terem um sobrenome de origem européia e um canudo de papel outorgado por uma universidade.

Esse homem, com sua instrução rudimentar, ainda na minha juventude fez com que eu, que estudei nas melhores escolas de São Paulo, pudesse entender que um país injusto como o Brasil não é bom para ninguém, e que só com a igualdade de oportunidades é que poderia fazer jus ao conceito fundamental de nação.

É inevitável fazer a analogia entre a luta de Lula contra legítimos impérios empresariais e as mais poderosas forças políticas – começando por uma ditadura – e o conto bíblico da vitória do jovem e franzino David sobre o poderoso gigante Golias. Afinal, Lula venceu um gigante monstruoso. E venceu três vezes.

Dirão que construí, para mim, uma imagem romanceada de um político como qualquer outro. Mais uma vez provo que estão errados. Tenho todas as justificativas racionais do universo para dizer que Luiz Inácio Lula da Silva jamais traiu a minha confiança. O poder não o mudou e ele cumpriu todas as promessas que me fez ao fazê-las a todos os cidadãos.

Lula fez seu povo – como ele mesmo diz, os feios, os desprezados, os pobres e desesperançados – melhorarem de vida como jamais ocorrera e alçou o Brasil a uma era de ouro. E o principal: devolveu a auto-estima aos brasileiros.

Agora, querem se vingar das derrotas acachapantes que Lula lhes impôs. Querem macular seu legado com acusações farsescas, irresponsáveis, criminosas. Querem, se possível, vê-lo encarcerado, pois foi sempre isso que fizeram com adversários políticos desde que atiraram o país em uma ditadura sangrenta.

Pois se essa afronta prosperar, dividirei, orgulhosamente, o banco dos réus com o ex-presidente. E serei acompanhado por milhões. Mas como só posso falar por mim, juro que, se Lula for a um tribunal, estarei ao seu lado. E quando lhe perguntarem o nome, levantar-me-ei e direi que o meu também é Lula.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Vídeo: Hildegard Angel enterra José Dirceu
(18set2012)

Para os mais jovens, cabe-me informar que Hildegard Angel teve seu irmão desaparecido nos porões da ditadura civil-militar brasileira. Sua mãe, Zuzu Angel, tanto procurou e tanto alarde fez ao questionar as autoridades sobre o paradeiro do filho, que foi morta num "acidente" dentro de um túnel no Rio de Janeiro. Hoje é sabido e provado que o acidente foi, na verdade, ação dos agentes da repressão para calar aquela mulher inconveniente que era conhecida internacionalmente.

Antes desse "acidente", Chico Buarque e Miltinho compuseram a música "Angélica" em homenagem e apoio à sua busca incansável pelo filho.

Agora, Hildegard gravou um vídeo fazendo uma adaptação livre do discurso de Marco Antonio na peça "Júlio César", de Shakespeare. Vale a pena ver. Quem não quiser ou não puder ver, apresento abaixo o texto de sua adaptação, que reproduzo do comentário de Alfredo Machado feito na postagem do vídeo no sítio de Luís Nassif.




Neste momento que vive nosso país, eis aqui uma adaptação livre por esta jornalista do magnífico discurso de Marco Antônio, extraído da peça "Júlio César", de William Shakespeare, e também cometo a ousadia de interpretar o texto, matando as saudades de meus velhos tempos de atriz. Quem preferir ler do que assistir ao desempenho neste vídeo caseiro, o texto está abaixo.

Beijos, Hilde


"Amigos, brasileiros, meus compatriotas, escutem-me. Vim  para enterrar José Dirceu, não para louvá-lo. O bem que se faz é enterrado junto com os nossos ossos, que seja assim com Dirceu. O nobre ministro Joaquim Barbosa disse a vocês que José Dirceu era ambicioso. E, se é verdade que era, a falta era muito grave, e José Dirceu pagou por ela com a vida, aqui, pelas mãos do Relator e dos demais Ministros do Supremo Tribunal Federal, sem esquecer de citar o nobre Procurador Geral da República. Pois Joaquim Barbosa é um homem honrado, e assim são todos eles, todos homens honrados.

Venho para falar neste emblemático "funeral" de José Dirceu. Ele era meu amigo, fiel e justo comigo. Mas Joaquim Barbosa diz que ele era ambicioso. E o ministro Barbosa é um homem honrado.

José Dirceu arriscou sua juventude, os anos mais vigorosos de sua vida, e dedicou todos os seus sonhos a tentar libertar o Brasil de uma ditadura sanguinária. Isto seria uma atitude indigna e ambiciosa de Dirceu? Quando o povo sofria oprimido, Dirceu se solidarizava. Ora, a ambição torna as pessoas duras e sem compaixão. Entretanto, Barbosa diz que Dirceu era ambicioso. E Barbosa é um homem honrado.

Vocês todos souberam que, travando seu bom combate, por três vezes, Dirceu teve que se despojar de tudo, de seu país, de sua família, de seu rosto e até de renunciar à sua identidade. Passou a se chamar Daniel, teve que mudar o nome para Carlos Henrique. Enfrentou o bisturi do cirurgião, desfigurando a própria face. Escondeu da mulher que amava, mãe de seus filhos, o seu passado, para proteger a família do perigo de saber quem de fato ele era, clandestino que estava em seu próprio país. Em nome de uma ideologia, ousou viver e sobreviver despojado dos mais básicos elementos essenciais à auto-estima de um indivíduo. E se despojou de um ministério poderoso, de um governo que ajudou a eleger, para travar nova luta. Seria este um homem ambicioso? Mas Barbosa diz que ele era ambicioso, e Barbosa, todos sabemos, é um homem honrado.

Eu não falo aqui para discordar do que o digno ministro Barbosa falou. Mas eu tenho que falar daquilo que eu sei. Muitos de vocês, se não amaram Dirceu, pelo menos o admiraram, e tinham razões para isso. Qual a razão que os impede agora de homenageá-lo na morte?

Ontem, a palavra deste homem seria capaz de enfrentar o mundo, agora, está aqui, desmoralizada, morta. E um homem de palavra morta é um homem morto.

Ah! Se eu estivesse mal intencionada, disposta a aliciar os seus corações e mentes à revolta, eu falaria mal de Barbosa e de Marco Aurélio ou de Mendes e de Weber ou de Celso e Lucia e Britto, os quais, como sabem, são homens e mulheres honrados. Não vou falar mal deles. Prefiro falar mal do morto. Prefiro falar mal de mim e de vocês do que destes homens e mulheres honrados.

Mas eis aqui um email de Dirceu! Eu o encontrei em minha caixa de correio. É sua carta-testamento. Quando as pessoas do povo a lerem  (porque, perdoem-me, eu não pretendo lê-la),  elas se lançarão para  beijarem os ferimentos de Dirceu e molhar os lenços no seu sangue.

O quê? Vocês exigem que eu a leia? Tenham paciência, amigos, mas eu não devo fazer isso. Vocês não são de madeira ou de ferro e, sim, humanos. E, sendo humanos, ao ouvir o testamento de Dirceu vão se inflamar, ficarão furiosos. É melhor que vocês não saibam que são os herdeiros de Dirceu! Pois se souberem... o que vai acontecer?

Continuam a insistir? Então vocês vão me obrigar a ler o email-testamento do Zé? Façam então um círculo em volta do corpo e deixem-me mostrar-lhes Dirceu morto, aquele que escreveu este testamento.

Brasileiros. Se vocês têm lágrimas, preparem-se para despejá-las. Vocês todos conhecem este manto. Vejam, foi neste lugar que a sentença do ministro Barbosa penetrou. Através deste outro rasgão, o ministro Fux, tão querido de Dirceu, proferiu o seu voto e, quando ele o concluiu,  vejam como o sangue de Dirceu escorreu do ferimento. E oh! Deuses, que golpe brutal para Dirceu, que tanto o admirava! Foi neste momento que seu coração parou. Então eu e vocês e todos nós também tombamos.

Sim, agora vocês choram. Percebo que sentem um pouco de piedade por ele. Boas almas. Choram ao ver o manto de José Dirceu despedaçado.

Bons amigos, queridos amigos, não quero estimular a revolta de vocês. Aqueles que praticaram este ato são sábios e honrados e já apresentaram a vocês as suas ponderações, queixas e razões. Eu não vim para agitar seus corações. Eu não sou uma boa oradora, como o notável ministro Joaquim Barbosa. Sou apenas uma mulher simples e direta, que ama os seus amigos.

Mas já que tanto insistem, revelo enfim o conteúdo da carta-testamento assinada por Dirceu.

Para vocês, ele deixou todos os seus sonhos de um Brasil mais cidadão, com menos desigualdades, um Brasil nacional, dono de seu nariz, e para os herdeiros de vocês e para sempre.

Este era José Dirceu. Quando aparecerá outro como ele?"

sábado, 15 de setembro de 2012

"Um canhão no cu", um artigo que incendiou a Espanha
(15set2012)


Este artigo incendiou a Espanha.   Publicado a 14 de Agosto na secção de cultura de El Pais, em poucos dias tornou-se a peça mais lida de sempre naquele jornal e além disso teve milhares de acessos no Facebook.   O autor é um escritor espanhol comprometido com os anseios do seu povo.   Leia também a sua entrevista "Tornámo-nos uma colónia da Alemanha" em Dinheiro Vivo.

Um canhão no cu

Por Juan José Millás

Se percebemos bem – e não é fácil, porque somos um bocado tontos –, a economia financeira está para a economia real assim como o senhor feudal está para o servo, como o amo está para o escravo, como a metrópole está para a colónia, como capitalista manchesteriano está para o operário superexplorado. A economia financeira é o inimigo de classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de uma criança num bordel asiático. Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de a teres semeado. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, ainda que vás à merda se baixar. Se o baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que tenhas caído, ainda que não haja nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta geralmente compra é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um tabuleiro de jogos no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país, este no caso, pouco importa, e diz "compro" ou diz "vendo" com a impunidade com que aquele que joga Monopólio compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno de milhares ou milhões de pessoas que antes de irem para a labuta deixaram no infantário público, onde ainda existem, os seus filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas superprotegidos, é claro, por essa coisa a que temos chamado de Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres são desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.

E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, desviam-se num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro. Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem infantário ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos agora mera mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui alteram o preço das nossas vidas a cada dia sem que ninguém resolva o problema, pior, enviando as forças da ordem contra quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as forças da ordem empenham-se a fundo na protecção desse filho da puta que te vendeu, por meio de um roubo autorizado, um produto financeiro, ou seja, um objecto irreal no qual tu investiste as poupanças reais de toda a tua vida. O grande porco vendeu-lhe fumaça com o amparo das leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passe a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do seu sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.


O original encontra-se no sítio do El Pais e a tradução em Dinheiro Vivo (foram efectuadas pequenas alterações). Este artigo encontra-se em Resistir.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Com o novo "modelo de julgamento" do STF, Collor, por exemplo, teria sido condenado
(14set2012)


As "inovações" que geram polêmica no julgamento do "mensalão"

Por Najla Passos, Carta Maior

Em curso há 40 dias, o julgamento da ação penal 470, o “mensalão”, tem provocado polêmica, em função de novas práticas metodológicas adotadas pelo Supremo Tribunal de Justiça (STF) e, principalmente, da forma diferenciada com que os ministros têm reinterpretado doutrinas até então tidas como pacificadas. Do fatiamento dos votos ao alargamento da abrangência dos crimes de colarinho branco, as mudanças em curso são expressivas.

Confira aqui o resumo das principais delas:


O não desmembramento

Pela lei, tem direito à prerrogativa do foro privilegiado no STF apenas políticos em cumprimento do mandato. No caso dos réus do “mensalão”, eram três. Mas o MPF denunciou 38 na ação que chegou à Corte máxima. E a Corte entendeu por bem julgá-los todos em conjunto, sob os holofotes da mídia. Já no caso do “mensalão do PSDB”, o desmembramento foi aceito e cada qual responderá na instância que lhe compete: o ex-governador Eduardo Azeredo no STF e os demais nas instâncias inferiores.


Fatiamento

A divisão do julgamento em blocos, proposta pelo relator Joaquim Barbosa e aceita pela maioria dos demais ministros, pode ser entendida como um meio mais fácil de construir a condenação dos reús. Ela segue a lógica da acusação, mas em uma ordem própria. O relator começou pelo capítulo 3º da denúncia, pulou para o 5º, voltou ao 4º e, na sequência, promete julgar o 6º, o 7º e o 8º, para só depois retornar ao 2º, que trata do núcleo político. Assim, ele decide quem é julgado primeiro e vai tecendo o ambiente necessário, com uso de indícios, presunções e meios de prova produzidos na fase de inquérito, para condenar os réus contra os quais não há provas judicializadas (produzidas dentro da instrução criminal, sob a fiscalização de magistrado). Esse método de valoração da prova, dando maior relevo àquela não judicializada, de fato, é algo que pode ser considerado como diferente no processo penal. Os ministros têm justificado essa forma de valoração da prova em razão da natureza dos delitos.


Indício e presunção como meio de prova

Antes, indício era um meio de prova de valor menor. Agora, ao lado do uso das presunções, foi utilizado como meio de prova suficiente para a condenação penal. A defesa desta tese foi enfatizada pelo ex-ministro Cezar Peluso, no último voto que proferiu antes da sua aposentadoria. Para ele, não há hierarquia entre as chamadas provas diretas e o indício. “O sistema processual, não só o processual penal, assevera que a eficácia do indício é a mesma da prova direta ou histórico-representativa”, disse.


Individualização das condutas

Como os réus são julgados em blocos, há casos em que a individualização das condutas fica prejudicada. Os advogados reclamam, por exemplo, que Marcos Valério e seus sócios são sempre condenados em conjunto, sem a devida análise da participação individual de cada um nos crimes em pauta. Há receio de que o modelo possa se perpetuar em outros blocos.


Corrupção ativa

Antes, era preciso comprovar um “ato de ofício” para condenar alguém por corrupção ativa, como alegado no julgamento da ação penal 307, que inocentou Collor de Mello. Neste novo modelo inaugurado no “mensalão”, entende-se comprovado o “ato de ofício” por meio da valoração de indícios e presunções. Nas palavras da ministra Rosa Weber, “nos delitos de poder, quanto maior o poder ostentado pelo criminoso, maior a facilidade de esconder o ilícito. Esquemas velados, distribuição de documentos, aliciamento de testemunhas. Disso decorre a maior elasticidade na admissão da prova de acusação”.


Corrupção passiva

A mudança diz respeito, segundo a defesa, principalmente, à destinação da vantagem recebida, antes tratada como pressuposto para configuração do crime. No “mensalão”, os ministros entenderam que não importa se os R$ 50 mil recebidos por João Paulo Cunha provinham de caixa dois do PT para pagar uma dívida de campanha ou se de suborno para favorecer as agências de Marcos Valério na licitação da Câmara. O fato dele tê-los recebido de uma agência de publicidade sem justificativa razoável, aliado ao contrato firmado pela agência poucos dias depois, foi suficiente para comprovar a corrupção passiva.


Peculato

No caso do crime de peculato, caiu a necessidade da comprovação de que os recursos desviados eram públicos: vários ministros destacaram que, mesmo que a integralidade dos recursos do Fundo Visanet fosse privada, o peculato estava configurado, porque eles foram desviados por um agente público no exercício da função pública: o ex-diretor de Marketing do BB, Henrique Pizzolato.


Lavagem de dinheiro

É a maior polêmica e continuará a ser discutida no próximo bloco, quando os ministros analisarão os saques feitos na boca do caixa. Pelo entendimento pacificado até antes do “mensalão”, a materialidade da lavagem de dinheiro pressupunha ao menos duas etapas: a prática de um crime antecedente e a conduta de ocultar ou dissimular o produto oriundo do ilícito penal anterior. A entrega dos recursos provenientes dos “empréstimos fictícios” do Banco Rural foi considerada lavagem, e não exaurimento do crime antecedente de gestão fraudulenta de instituição financeira.

Da mesma forma, e por apenas um voto de diferença, o saque do dinheiro na boca do caixa foi considerado lavagem, e não exaurimento do crime de corrupção. Para os advogados, esse novo entendimento superdimensionará o crime de lavagem, já que sempre que alguém cometer qualquer delito com resultados financeiros e os entregar a outro, incorrerá, automaticamente, nesta prática.