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Geólogo e professor aposentado, trabalho este espaço como se participasse da confecção de um imenso tapete persa. Cada blogueiro e cada sitiante vai fazendo o seu pedaço. A minha parte vai contando de mim e de como vejo as coisas. Quando me afasto para ver em perspectiva, aprendo mais de mim, com todas as partes juntas. Cada detalhe é parte de um todo que se reconstitui e se metamorfoseia a cada momento do fazer. Ver, rever, refletir, fazer, pensar, mudar, fazer diferente... Não necessariamente melhor, mas diferente, para refazer e rever e refletir e... Ninguém sabe para onde isso leva, mas sei que não estou parado e que não tenho medo de colaborar com umas quadrículas na tecedura desse multifacetado tapete de incontáveis parceiros tapeceiros mundo afora.

domingo, 10 de abril de 2011

Alemanha, o Brasil é aqui (10abr2011)

Por Flávio Aguiar

Interrompemos nossa viagem pelas oposições nos países da Liga Árabe (o seguinte será a Síria) para falar de um drama político alemão. Mas que tem a ver, diretamente, com aquela região.

Quando houve a votação no Conselho de Segurança da ONU sobre "a área de exclusão aérea – no flying zone" na Líbia – eufemismo para a destruição da Força Aérea, das baterias antiaéreas e mais alguma coisa de Muammar Gadaffi – a Alemanha se absteve. Como fizeram Brasil, Rússia, China, entre outros, contrariando os EUA, a França e o Reino Unido, promotores da proposta.

Nossa! Em Berlim houve uma tempestade. Ao lado de vozes concordantes – como a do Partido Linke, mais alguma mídia tida como de centro-esquerda – houve um coro dos contrários, ameaçando céus e terra contra o voto alemão.

"Voto na ONU leva a Alemanha ao isolamento", diziam as manchetes mais alarmistas e iradas. Acusava-se o atual governo alemão de romper com uma linha tradicional da diplomacia germânica pelo menos desde os tempos de Adenauer. Qual essa linha? A do "alinhamento automático" com os Estados Unidos e seus aliados em matéria de política internacional.

Parecia o Brasil, onde a oposição de direita aproveita qualquer oportiunidade – até hoje – para criticar o governo Lula por seu distanciamento em relação a inúmeros quesitos da política internacional norte-americana, inclusive essa da Líbia.

Mas aqui não era só a direita. Todo o lado mais tradicional do establishment diplomático alemão ergueu-se em uníssono contra o voto de abstenção, que demonstrava uma diposição de discutir alinhamentos "caso a caso", ao invés de com o piloto automático ligado.

Depois de curta hesitação o Partido Social-Democrata saiu criticando a decisão no Parlamento. O Partido Verde promoveu uma consulta às bases parlamentares: deu 28 a 13 contra o governo, e os verdes também caíram na crítica. Depois de uma curta hesitação também, sua ala mais à esquerda engrossou a posição condenatória.

Havia um cálculo político imediatista nisso tudo. A posição do polêmico Ministro de Relações Exteriores – Guido Westerwelle, do FDP – já era pericilitante. E, de fato, periclitou de vez, embora não como os advesários esperavam. Na seqüência Westerwelle anunciou que renunciava à nova disputava pela liderança de seu partido, o FDP, que compõe a coligação governista com a União Democrata Cristã de Angela Merkel, bem como ao cargo de vice-chanceler (vice-primeiro-ministro em nossos termos). Mas não renunciou ao cargo de Ministro de Relações Exteriores.

A decisão de Westerwelle, de abrir mão de tudo, menos do último cargo, mostra que a polêmica nos bastidores da política externa alemã é profunda. Uma visão mais aguda do embate mostra que cresce nesse meio político a visão de que a Alemanha deve se adequar aos "novos tempos" da globalização, em que Brasil, Rússia e Índia (da China nem se fala) deixaram para trás as economias da Itália, do Reino Unido, da França e do Canadá em termos de PIB e importância mundial. A Índia também passou a Alemanha. Nesse mundo, faz algum tempo, o G-20 substituiu ou encampou o G-8 como principal Fórum econômico, ao lado da OMC. Em termos europeus, se a Alemanha precisa da França para equilibrar a política do periclitante euro, precisa da Rússia para balizar sua política em relação ao antigo Leste, e depende das importações chinesas para se soerguer da crise econômica.

O voto alemão na ONU foi, além de um voto com um ângulo de visão voltado para a política interna (não ao interessa ao governo alemão abrir uma nova frente militar em ano de decisivas eleições regionais), um voto de "atualização" da sua política externa.

Quer gostem ou não os ardorosos defensores da tradição do alinhamento automático, essa é uma realidade que as políticas de estado deste país terão de levar em conta daqui para frente. Estes defensores alegam que o voto de abstenção roubou à Alemanha sua importância no panorama internacional. Quem sabe seja essa visão do panorama que está perdendo a relevância, por anacronismo. Como no caso da direita brasileira.

Do Blog do Velho Mundo, postagem de 5 de abril de 2011.

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